sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Ô, meu Senhor...

E como eu poderia ficar aqui, e não me comover com você?

ô Senhor, 
me volta uns dois anos e meio, 
me deixa chorar 
assistindo o teatro do grupo de jovens.

me deixa sofrer só um pouquinho
e ouvir falarem do amor de Deus
pela trilhonésima vez,
deixa uma mão boa pousar no meu ombro
e rezar por mim. 

quero voltar Amado, 
por uma blusa de malha com dizeres religiosos,
amarrar um rabo sem vaidade, 
por jeans, tênis
e dançar 
"quero louvar-te, sempre mais e mais"

deixa eu viver de novo
pelo Teu próprio Amor,
que enjoei desta carne miserável
lembrando
que não sou digna
da boniteza
do teu Infinito Amor.




terça-feira, 9 de setembro de 2014

?...


quando me deixaram
fechei uma prova
quando nasceram
Nathan e Felipe
descobri em mim
uma dolorida e absurda
capacidade de amar

quando vejo o azul
dos olhos da minha vó
quero que virem um mar
de sofás, café, e terços
rezados com devoção
ansiando beber
essas gotas de felicidade
que perdi em são joão.

quando. 
quando você vem?


domingo, 7 de setembro de 2014

faculdade

enquanto o professor
reduz-me a um complexo de Édipo
mal resolvido
eu penso
que se os universitários são o futuro do país
estamos todos perdidos
com estes poços
de álcool e superficialidade

prova, trabalho, prazo.
o ser humano engaiolou a vida desta forma
com que propósito?

estou pensando demais.
se me dessem um pote de paçocas,
eu parava.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A estrada

Quando se vai
de Divinópolis para São João del Rei
passa-se
pelo ribeirão Boa Vista
e o ribeirão Mamdembo
o segundo
gordo de emes.
Cruza-se
com o Rio do Peixe
e a esquerda em certo ponto
encontra-se o povoado
Félix da Costa.
lugarzinho de poucos postes
(penso eu)
onde estão apenas filhos,
netos
de ilustre senhor Félix.
"parece feliz da costa"
brinca uma amiga.
e eu penso
que a vida lá
deve ser uma felicidade tremenda mesmo.

Um caminhão passa com a seguinte frase:
"eu quero, eu luto, eu consigo"
vaquinhas malhadas pastam ao redor
ipês pomposos de amarelo
chamam os olhos
no carro toca:
"só me fala onde
que eu vou te buscar agora"
Meu organismo não medicado
enjoa,
mas a alma vai feliz:
passa-se pela estrada Divinópolis - São João del Rei
mas ela não costuma
passar por a gente.

sábado, 9 de agosto de 2014

São João del Rei


São João del Rei me mata
com suas igrejas barrocas
pesadas de ouro e suor escravo

São João del Rei me mata
com seus universitários barulhentos
extasiados com sua própria miséria

São João del Rei me mata
com seu frio cortante
com minha casa escura
com o estreito de suas ruas
com os cheiros de vó, café, e mato
que não tem

São joão me futiliza
fadiga
esfria
animaliza
impacienta
me cobra mais do que posso dar
assassina meu eu poético

São joão me mata ao amanhecer
e antes de dormir me faz lembrar
que eu
adoro morrer


Jornalismo

Meus professores estão tão apaixonados
por aquilo que eles não sabem
mas eu sei
que é a vida

"O filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça"
o jornalista também não
Nesse curso só se fala em paixão

é por isso que estou aqui
um amor desatinado
deve ser isso que mora em mim.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Já





Tem horas que eu só sei pensar "esse povo lê mesmo o que escrevo? Se lê, entende? Se lê, por que o faz?". Ainda vem, e diz que gosta, que escrevo bem, que adorou... e eu nessa, perplexa, mas gente, como pode, se tudo que ponho em linhas é porque fica girando dentro de mim até eu enjoar. Escrevo como quem vomita. Querer eu bem queria, ser lírica e literária.  A mestra fala em anjo esbelto (expressão bonita!), Jorge Amado diz que homem bom tem uma estrela no lugar do coração, a sagrada escritura tem frases que de tão lindas parecem carinho, "olhai os lírios do campo..." Ah, Senhor, tende compaixão de mim, se eu for capaz de pôr em palavras a belezura de um entardecer divinopolitano, será para louvar teu santo nome. Olhar essa rua às cinco da tarde e ouvir barulho de van é mesmo uma facada no peito. Era eu, ano passado. Descia a ladeira do Cefet e lá embaixo já aglomerava-se gente, duas, três vans. "Os exercícios de fixação são pra amanhã, Tati?", "É sim, sarinha". Estamos cansadas e cansados. Costuramos, fizemos desenho técnico, sentimos calor... vamos felizes demais pra casa. Nenhum dia eu me esqueci de pensar que o pôr-do-sol ali em cima era o mais lindo do mundo. Não canso de amar aquele povo. E no auge da minha alegria universitária, quero sentar com a Ana e discutir a vida no banco mais uma vez, ouvir o Lucas pedir doce de coco, reclamar com a Erilda das costuras que deram errado. É por isso que não sirvo para ser grande mestra da literatura brasileira, tudo que falo é porque me incomoda por dentro. Agora por exemplo, pesa no peito esse tempo de ensino médio. Sonho com alguns, falo em outros, risadas ressoam na minha mente. Quem não tem capacidade não devia ter vontade, é o que penso, e sigo com minhas linhas tortas. Não me deixam ser esquisita de jeito nenhum, estou sempre tendo que dar explicações. Esses dias meu tio do andar de baixo bateu perguntando o que tinha acontecido comigo porque eu estava ouvindo sertanejo. Rindo é verdade, mas confuso sobre mim. Interrogações se formam ao redor dos batons vermelhos e as blusas de santo, as folhas de alface e o brigadeiro, o tamanho da saia e o tamanho da alma. Queria ver na minha certidão, o tópico que me obrigava a fazer sentido na vida. Não me deixam ser freira, minha mãe não quer que eu beba, não consigo brincar com o sentimento dos outros nem um pouquinho. Aí é o meu que fica todo zoado, brincando de montanha russa. Queria mesmo era chamar Lola, um nome que sobe e desce na boca, e me divertir com a paixão dos outros, que podia ser pesada, mas eu veria de uma forma leve. Aí eu gingaria meus quadris sem culpa, minhas unhas não seriam fracas lascando todo o tempo, se manteriam em tons escuros. Vi a Adélia no centro hoje. O tempo ficou suspenso. A blusa dela era cinza, o dia também era, cinza é a cor do sangue do meu corpo parando de emoção. Fiz nada, a deixei ir. Primeiro pensei que Deus lançou-a em meus braços e eu deixei cair, aquela que me fez nascer. Depois vi que era certo, assim como tudo na minha vida. Sempre acerto quando erro. Aiai, minha virgem do Carmo, protege minha casinha em São João, ilumina o vestibular da Bárbara e da preta, eu uso com gosto o escapulário que achei no chão e foi a senhora que me deu. Pego copos, arranho pescoços, canto "vai brincando pro cê ver", mas meus santos estão todos em seus lugares. Teresa, Chiara, Francisco, não saem dos pedestais da minha vida, nem a arma de fogo. E olha que esses fogos torturam. Ah, eu queria mesmo era o Cefet, para o qual se ía comer em uns dias peixes e em outros carne moída, e as aulas não traziam o peso culposo de quem se está decidindo a vida.