domingo, 19 de outubro de 2014

jornalistas


Um homem
invade 
a guerra
porque pede
sua profissão

jornalista.
a câmera que filma
o momento
do tiro
não mostra
o que nele 
é humano:

um coração 
que quase parou
para 
poder
informar

me repito
o Filho do Homem
não tem onde
reclinar a cabeça

o jornalista também não.

estamos exatamente
onde profissão
quis casar
com paixão

terça-feira, 14 de outubro de 2014

mas quando ela dança



Deito na cama e não durmo. O que São João del Rei faz com uma pessoa? Sódio, fritura, álcool. Mata. Eu vim conceder celulite às minhas pernas, e ouvir meus professores dizerem que serei pobre? Nem tudo está perdido: há aquele inconfundível som, das rodas de carro contra as ruas estreitas de pedra sabão. Em certo ponto, vende-se picolé sem embalagem, com pedaço de fruta, bem ali, no pé do morro da casa de uns meninos estranhos. É bonito como se erguem imponentes, as igrejas rebuscadas de anjinhos de mármore, contra um céu incrivelmente azul. Antes eu não me sentia em casa, agora minha gaveta da cozinha tem xícaras. A marca do café é a mesma que dona Maria compra. A diferença é que ninguém me chama de "fia",  não rezam o terço comigo, e uma e quinze da manhã, empurram minha janela me gritando. É sem medo que afirmo que universitário é uma raça, e das mais ordinárias possíveis. Vivem gritando pelas ruas de madrugada, pregando os chãos com bebida, atormentando vizinhos com música ruim. Desonestos, mentirosos, preguiçosos, dissimulados, interesseiros. Incrivelmente espertos para raciocínios ruins. Não parece que estamos construindo um futuro. Ficamos maltrapilhos quando nos botaram o seguinte peso nas costas: sejam alguém. Preciso de um bom CR, de um curso de inglês, de um currículo extenso, de tirar ao menos 6 nessa prova, de fazer um curso que não seja jornalismo... de um copo de gummy. Não sei editar videos, fazer cartazes, elaborar perguntas pertinentes, nem tenho uma grande câmera preta. Trouxe comigo só meu excesso, as linhas tortas e essa insaciável paixão. Se o Filho do Homem cursasse algo, seria jornalismo. Se eu fosse freira, cuidaria de um jardim. De rosas, e um dentro de mim. Tenho essa vontade de amar o mundo, e quando toca uma música bonita no carro, alguém pergunta o nome, é o fim da aula, e estamos indo embora na noite escura, eu amo. Quando a Leite de Castro está confusa de carros, fumaça e gente de cara feia, e eu quero desacreditar, uma música bonita toca no telefone também."Tell me how I'm supposed to breathe with no air?", me dá até vontade de ter um amor bem doído. Acordo de madrugada com sede excessiva e as canelas roxas, os sapatos na área estão atolados de barro, mas é bonito morar numa cidade recheada de palavras como largo, pelourinho, mercês, pilar. Sinos repicam à senhora morta. Essa gente cheia de "boto fé", "ô viado", chamando festa de rock, é engraçada demais. Alargam em mim um sorriso sem muita reflexão. Não sei bem o porquê de estar escrevendo isso. Acho que é só pra contar que São João já me permite escrever.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Onipresente

Quando deito na cama
pra dormir
gosto de pensar que estou
na concha da mão de Deus
que me nina
a sorrir

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Ô, meu Senhor...

E como eu poderia ficar aqui, e não me comover com você?

ô Senhor, 
me volta uns dois anos e meio, 
me deixa chorar 
assistindo o teatro do grupo de jovens.

me deixa sofrer só um pouquinho
e ouvir falarem do amor de Deus
pela trilhonésima vez,
deixa uma mão boa pousar no meu ombro
e rezar por mim. 

quero voltar Amado, 
por uma blusa de malha com dizeres religiosos,
amarrar um rabo sem vaidade, 
por jeans, tênis
e dançar 
"quero louvar-te, sempre mais e mais"

deixa eu viver de novo
pelo Teu próprio Amor,
que enjoei desta carne miserável
lembrando
que não sou digna
da boniteza
do teu Infinito Amor.




terça-feira, 9 de setembro de 2014

?...


quando me deixaram
fechei uma prova
quando nasceram
Nathan e Felipe
descobri em mim
uma dolorida e absurda
capacidade de amar

quando vejo o azul
dos olhos da minha vó
quero que virem um mar
de sofás, café, e terços
rezados com devoção
ansiando beber
essas gotas de felicidade
que perdi em são joão.

quando. 
quando você vem?


domingo, 7 de setembro de 2014

faculdade

enquanto o professor
reduz-me a um complexo de Édipo
mal resolvido
eu penso
que se os universitários são o futuro do país
estamos todos perdidos
com estes poços
de álcool e superficialidade

prova, trabalho, prazo.
o ser humano engaiolou a vida desta forma
com que propósito?

estou pensando demais.
se me dessem um pote de paçocas,
eu parava.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A estrada

Quando se vai
de Divinópolis para São João del Rei
passa-se
pelo ribeirão Boa Vista
e o ribeirão Mamdembo
o segundo
gordo de emes.
Cruza-se
com o Rio do Peixe
e a esquerda em certo ponto
encontra-se o povoado
Félix da Costa.
lugarzinho de poucos postes
(penso eu)
onde estão apenas filhos,
netos
de ilustre senhor Félix.
"parece feliz da costa"
brinca uma amiga.
e eu penso
que a vida lá
deve ser uma felicidade tremenda mesmo.

Um caminhão passa com a seguinte frase:
"eu quero, eu luto, eu consigo"
vaquinhas malhadas pastam ao redor
ipês pomposos de amarelo
chamam os olhos
no carro toca:
"só me fala onde
que eu vou te buscar agora"
Meu organismo não medicado
enjoa,
mas a alma vai feliz:
passa-se pela estrada Divinópolis - São João del Rei
mas ela não costuma
passar por a gente.