quinta-feira, 12 de março de 2015

Intermédios em São João





Foto:Kleyton Guilherme


No banco a moça me fez assinar uns mil papéis. Antes disso, esperei duas horas inquietantes na fila, com um xerox intitulado "O rádio" na mão. Entretanto, o banco estava cheio, e pessoas são muito interessantes no seu desinteresse, não consegui ler. Moças de rasteirinhas segurando distraídas os papéis entediantes de banco. Uma senhora sai puxando pelo braço uma velhinha. Homens braçais aguardam com envelope pardo, com seus bonés desgastados e certos modos ríspidos de esperar. A senhorinha de trás me falando, "tenho síndrome do pânico, hoje tô mais calma porque tomei remédio". Um telefone recebe uma mensagem, um neném espirra, alguns comentam vagamente política... ruídos cotidianos musicam meu aguardo.

Nas ruas, São João del Rei faz do dia um espetáculo. O sol recorta de cores um céu moldando mil torres de igreja. Passam universitários. Observo que andamos meio jogados, com as mochilas tortas, com passos apressados... guardando nossos medos absurdos. Eu corro, quase minha hora de sair com uma mochila também. Todos os dias assusto-me com a coragem absurda que foi, e tem sido, vir para essa cidade de ouro e pedra cursar Jornalismo.

Observo meus professores falarem. A fala deles têm paixão.
A Kátia fala das suas fotografias. Admiro alguém que tenha a delicadeza de enquadrar bem a senhora que reclama do esgoto aberto. O Chico diz: um jornalista precisa conhecer a cidade. São delicadas as engrenagens sanjoanenses. Indo da casa ao Santo Antônio (irônico nome do campus das engenharias) observo senhoras entrarem nos mercadinhos pra escolher tomate. Os butecos desprendem cheiro de pastel frito, os homens se encontrando. Eu afundando o caminho de tanto fazê-lo, indo e vindo, indo e vindo.

 Ainda não decifrei se São João me mata ou me vive. Uma das estações da via-sacra estava aberta por esses dias, enquanto eu passava. Jesus sob a cruz, com expressão e cabelos reais horrorosos. O barroco é um belíssimo mal gosto infinito. Não consigo rezar sob o teto dessas igrejas de ouro. É difícil me encontrar com Deus por aqui, as pessoas são barulhentas. Estudantes falam alto e muito, sem dizer absolutamente nada. Riem, enchem copos, discutem futilidades, e tudo isso tem me cansado muito. Desagradam-me as pessoas excessivas, gosto de quem vem devagar. Agora por exemplo, sinto saudade do Lucas, que me pedia doce. Da Cássia, que faz café. De um moço que só vi três vezes e todas por coincidência, e que não vai mais embora.

Gente me comove muito e eu sinto demais. Não sei o que fazer com tudo isso e por isso escrevo. Como lidar com a assustadora instituição que é o mundo,que é a vida? No banco não pude ler o xerox do rádio porque precisei ler as pessoas. Decifrar as lentas engrenagens que giram a vida em São João del Rei, enquanto estamos aqui como forasteiros, incomodando vizinhos e virando copos, nos destruindo e nos refazendo. Talvez eu tenha mesmo que ser jornalista.  Talvez eu esteja inteira na minha incompletude.

A noite eu rezo, e repito Francisco  de Assis. Quero ser instrumento da paz, e do Teu infinito amor.










quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Um diamante

se eu te falar que eu gamei, ó

O carnaval é uma festa sem cheiros. 
Pelas íngremes ladeiras diamantinenses deslizaram bebidas, juízos, pés cambaleantes, a dignidade de muita gente. É um lugar cheio de história, situado entre pedras. Onde o sol e a festa resolveram parar. Terra quente demais durante as tardes, fria sob a lua, estremeceu todos os meus sentidos. Enquanto a igreja amarela ardia debaixo do sol, um carro passava assoviando, e nós descíamos o morro absurdo, eu pensei que era bonito morar num país que declara: por cinco dias vamos festejar!

Vibrei com tanta cor, corpo, sabor, cheiro e barulho. Porque tudo tem sua hora, e carnaval é hora de esquecer. Há 360 dias para se preocupar com o que vestir, com o que comer, com o que vão pensar de determinado comportamento. E cinco para pegar uma caneca, a roupa mais fresca e cantar música ruim com estranhos. Esse arrocha é pra você que achou que eu tava aqui sofrendo, vai vendo. E eu vi: os casarões históricos refletidos numa infinidade de óculos de sol escondendo olhos já meio fora de órbita. Ouvi: as pedras-sabão vibrando com o batuque de tantos ritmos. Observei a ascensão e a decadência humana. A alegria, a euforia, a dança, seguidas da cabeça entre os pés esparramados na calçada. É uma pena que a grande maioria das pessoas sinta necessidade de chegar a tais estados, mas isso não desmerece a folia boa. Nem o fato de que a Coliseu ganhou uma república para disputar meu coração! República Litraço, o bonde confirmou. Além da mais óbvia constatação: um amor de três dias é infinitamente mais saboroso que um de três anos. 

Aquela cidade reergueu em mim um leque de necessidades saudáveis, meu faminto desejo de equilíbrio nesta vida. Eu quero uma existência em cores fortes: com barulho, gente transitando e ficando, música boa e ruim. Quero copos gelados, e quando tocar então desce, desce, desce menina, eu desço mesmo. Depois eu subo para essas mediocridades diárias, afinal, são elas que contextualizam a diversão. Ah, para expressar bem o que foi meu carnaval, as letras deste texto abobado tinham que dançar. Porque foi isso. Diamantina é a farra boa no meu coração.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Eu, que não me chamo Lola.

Is someone getting the best of you?

Eu chuto os baldes é com as pontas dos dedos. Provoco respingos de água com minhas sãs indecisões. Parece-me que o mundo ao meu redor prende o fôlego esperando o decisivo momento no qual eu viro ou puta ou freira. Eu sinto morar em mim duas metades que de tão incompatíveis se amam, mas que não fecham um todo. Não existo num todo. E se pinto as unhas em tons escuros e deixo crescer, é por genuína crueldade. Há dezenove anos entortei um pouco mais o já descoordenado eixo da terra, tropeçando sem salto, batendo nas paredes da casa pela manhã, brigando com meu peso. Tentando compassar minha arritmia existencial.

Fato é que gosto dos piores rapazes e dos santos mais humildes. Rapazes desgastam-me tanto que fico querendo ir embora de todos ou que algum me apaixone. Sou incompetente demais para ambas as coisas. Eles também. Santos envolvem-me profundamente, nas suas imagens ternas, nas suas histórias bonitas. A luz vermelha dos Sacrários habita em mim. Mas sinto muito frio nos pés. No fim das contas não poderei me cobrir com um hábito, tenho a pele sensível demais a toques. Passo batons escuros por pura preguiça de maquiar, vou-me embora por pura preguiça de sofrer. Não tenho estômago forte o suficiente para o fato de que "te amo" em espanhol é "te quiero". Querer alguém é enlatar o coração, pô-lo em nojento líquido de conserva. Desgasta-me quando me querem muito, desgasta-me quando me querem pouco, não gosto de pessoas pontos-finais. Sou eternamente reticências.

Eu queria ter a fibra das pernas firmes da minha mãe, a praticidade dos seus dedos rústicos. Quando o varal estraga ela o improvisa, se necessário, arranca as cortinas da casa. Tem voz alta para os cânticos de igreja, estressa-se com coisas tolas. Nada disso herdei, o que faço de forma prática é embolar a vida. Embaraçar fios esticados. Comer queijo com goiabada quando tem chocolate. Rezo mil rosários mas não me peçam para escutar música religiosa. Frequento mil conventos mas não me peçam para carregar um bebê dentro de mim. Eu sentia-me monstruosa com minha aversão à gravidez, até que a irmã revelou-me: você é muito maternal, Sarah.

É que cuido com zelo dos meus afetos. Não quero demorar-me mais onde não houver amor. Eu gero vida é com os fogos que desperto, com os cafés que fervo, com a sinceridade das minhas preocupações. Decorei este fato: a parte mais sensível da língua é a ponta. A parte mais sensível de mim são as pessoas. Não vai embora não, sô. Faço um brigadeiro, um doce de coco. Conversa comigo Ana, me conta da vida Cássia. Amei a visita, Jão! Sou fogo, sou ferro, mas também sei ser ternura. Rezo ave-marias para os amigos nas estradas, gosto de observar as faixadas das casas e seus ornamentos. Gradinhas baixas e plantas penduradas nas paredes me agradam. Acho que cedo meu útero só para nascer uma Lola. Tenho necessidades dessas palavras: Lola, cereja, largo, te quiero.

O barroco que me assusta mora em mim, barrocas são minhas curvas. Sou perigosa na finura da minha cintura, na largura do meu quadril, no absurdo da minha fé. Minha religião não conseguiu me domar. Entretanto não há maior vontade em mim do que a de ser boa. Se eu pudesse salvava o mundo todos os dias, não sei mais quantas crianças jogando damas no papelão eu consigo ver sem chorar. Quero chorar todas as pessoas sozinhas existentes. O mundo dói demais pra eu sorrir. É por isso que evoco Francisco de Assis que amava as pessoas, os animais e beijava leprosos. Cristo, quero ser instrumento de tua paz e do teu infinito amor. Mais que fome corporal eu tenho fome de bem.

Por isso permito-me um rabo de cabelo baixo e uma camisa de dizeres religiosos, suporto o cheiro débil, e visito os idosos. Estendo as roupas para minha mãe não ter que subir escadas, intercedo em favor de família e amigos com poucas tendências religiosas. O leve toque dos sinos quando o padre levanta a hóstia é o que rege a vida que há em mim, sou como mosca a rodear essa luz. Eu sei que é só Deus que me completa mas divirto-me com as coisas tangenciais. É por isso que chamo de "meu bem", escolho saias e um nome pra república.

E eu ainda vou desfazer alguns juízos. Tropeçar descalça. Cê é tão sonolenta, revela meu pai.  Desculpa pai, é que as vezes a vida desperta-me alegrias eufóricas mas na maioria das vezes tenho vontade é de dormir mesmo, de subir num colo e ficar por lá. Equilíbrio é o que busco, insegurança é o que tenho. Aprendi a tirar bem as cutículas, descascar mal as laranjas, a engolir as incertezas que cursar jornalismo me traz. Invés de ser peça inteira, quero para sempre ser cacos para um vitral.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Gritando


Hoje eu malhei o dia inteiro, malhei esse meu corpo sobrando sete quilos, e minha'lma, que tentei forçar todo o tempo para cima. Gente, eu quero sublimar, pelamor. Cê não tá gorda, Sarah. Seu corpo é bonito. É culpa daquele maldito short. Era da minha mãe quando jovem, um jeans meio gasto de cintura alta. Lindo. Não entra em mim. E a bondade de Chiara Luce?  De Francisco de Assis? Também não cabem na minha alma pequena. Eu fico ouvindo música ruim e querendo voltar para São João. Ô Senhor. Como é que pode caber tanta futilidade numa pessoa só? Me livra disso, me borda com teu amor. Dá-me mais instantes como aquele: da penúltima vez que comunguei, imaginei algo muito bonito. Me veio assim: imagina a emoção de Maria segurando nos braços Jesus nenenzinho. Jesus. Nenenzinho. Quanta ternura numa cena só! Ai. Quero visitar idosos. Suportar os chatos. Ter paciência com minha mãe. Nos meus objetivos para 2015 escrevi: fazer uma caridade todos os dias. Senhor, porque nos tiraste Chiara, quando eu claramente preciso dela? Por que uma santa morre aos dezoito enquanto eu, preocupada com um short de cintura alta, tô viva? 

Caminhando pelo calçadão lembrei-me do gosto por amores subversivos. Gritos, descabelos, vontades ardorosas. Sofrimento, sofrimento, adoro Snap Out of It do Arctic Monkeys. Escrevi numa poesia: "se eu tivesse um amor, cozinhava em fogo baixo, matava devagarinho, porque nunca fui de gritar". Gente, como eu abomino esses lugares comuns: mãos dadas, vestidos floridos, domingos nas praças, mãos sempre na cintura.Eu acho bonito demais o sofrimento, como são poéticas as coisas doentias! Enterro minha insanidade debaixo de muitas contas de rosário. Porque eu não acho que as pessoas são obrigadas a conviver com uma Sarah louca, eu não sou obrigada a conviver com uma Sarah louca aqui dentro. Ai, quero ser bonita só com um batom e um vestido, que nem a Thaís. Cansei de excessos. Não, quero ser bonita que nem a Chiara, só com a luz divina. Honestamente, agora eu só queria descer minhas dez unhas já meio descascadas numas costas aí. Passo por um cara que fala, "Nossa Senhora", eu penso, "tá no céu, meu filho." 

Observo as mulheres existentes. As ministras da eucaristia usam rabos baixos, saltos dicretos e grossos, brinquinhos dourados. Tem essas senhoras de ares cansados e meia idade, que cruzam por mim enquanto caminho no calçadão. Vão repletas de sacolas do ABC, filhos, marido e trabalho tecendo certa curvatura em suas costas. Tem as amigas que falam alto, seguram copos, e me fazem rir. As que me fazem refletir. Tem minha vó me perguntando que letra é pra bordar na toalha de rosto. E eu? Tenho a alma na porta da rua. Falo, "que vontade de te beijar". Quando vou na adoração  levanto e toco o Santíssimo, mesmo sob os olhares recriminantes das beatas sem fervor. Meus braços coçam. Algum matinho misterioso que cerca o passeio de caminhar me dá uma alergia absurda.

Acho que sou mesmo alérgica a relacionamentos. Lembro até hoje do menino que me ligava de madrugada, se passa alguém com aquele perfume doce por mim eu arrepio. Não sei o porquê, foi um trem tão bobo. Acho que gosto de coisas meio bestas. Por exemplo, acho graça demais num cruzamento no bairro da minha vó. O carro da minha mãe passa capengado sobre as pedras. Numa esquina um açaí, na outra, um açougue e mercadinho. Um lote vago crescendo matos, um predinho familiar com enfeitizinhos nas sacadas. Sabe o que é bonito? No mercadinho/açougue tem umas frutas e verduras pintadas nas paredes estreitas. Na parede da minha vó, um folheto com os dias do ano que vem com trechos da Bíblia. Promessa de ano novo, com uma amiga: esse anos vamos nos apaixonar, e chorar por isso. A Laura contando: meu pai rachou o cimento ali pra plantar limão, daqui uns dias esse lugar aqui vai virar uma horta! Eu fico perplexa com a delicadeza do ser humano. Acho que é ela que me faz ter vida em excesso. Eu nem sei o que fazer com tanta vida. Com tanto peso tomo chás, suo correndo, águas de berinjela. E essa ânsia de viver, de gritar que a criação é linda, que Deus elaborou o mais refinado dos espetáculos com o pôr-do-sol? Escrevo.

No fim do calçadão há uma placa explicando o porquê do nome do pontilhão que liga aquele bairro a outro. Certa senhora portuguesa que doou terrenos para algo que não me lembro mais. Minha cidade existe porque por ela passou uma ferrovia. Quando ergueram uma igreja amarela imponente ela passou a respirar. Ando muito aqui para provar que sou bicho da terra, é com gosto que piso esse chão. É com raça que piso o de São João. É com paixões absurdas que se cursa Jornalismo. É com fé que se vive. Sem ela só existimos. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

sã?


Se for vir
 tenha a competência de me fazer atirar copos nas paredes.

não ligue
não seja.

esteja.

Se for vir, tenha a competência de me deixar desvairada.

só aceito ser sã
se for ser freira.

sábado, 3 de janeiro de 2015

eu preciso em 2015!



Eu preciso constantemente me inspirar!
    então tenho que tomar cafés,
        pisar gramas,
                                   ouvir histórias de santos,
                            beijar devagar

ter dias de cama bagunçada
e os de arrumar o quarto também.

                                eu preciso de fé
                                                       afeto
                                                       vontade
                                                           doce
                                                              e
                                                               amizade!


                                                       

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O desamor


Amor é uma palavra maltrapilha. Já foi mastigada, regurgitada, reustaurada, invertida... mais usada em vão que o nome de Deus. Paixão é brega. Apaixonados. Nem a sonoridade é agradável: a palavra  sobe e desce na boca, som de x som de s, um ai no meio, excessiva em excesso - tão cansantiva que a redundâncias é pertinentes. Minha mãe mede beleza pelo nariz. Mostro alguém, mãe olha que lindo, ela replica, que nariz horroroso. Aí não interessa mais se tem um andar felino, olhos bonitos, cabelo macio ou se articula bem. Quando eu penso que queria resolver as coisas pelo nariz (esse tem um bom, é ele mesmo) lembro que nunca resolvo por método nenhum. Eu nunca sei falar para ninguém ir embora, e deixo tudo solto, com expectativas pairando no ar. Não sei se querem ficar, ou se meio jeito indeciso os impede de ir.

Se me ligar de madrugada eu converso. Concedo colo, ouço reclamar da mãe. Arranho, debocho junto, até mordo. Depois vou embora.

Sobem as janelas de conversa, os copos suam na minha mão ("que curso cê faz, moça?"), um pêndulo oscila impaciente por detrás do meu estômago. Já posso ir? Hoje meu pai definiu o problema. Cê têm umas crises de identidade, já quis até ser freira. A admiração por religiosas já decifrei: encanta-me a firmeza da decisão, sendo eu a senhora das histórias frouxas. Coisa de quem tem quadril largo. Ando gingando, balanço a vida, é oscilante minha vontade, num dia sou solícita noutro finjo que não vi.

Aiai. Largar tudo e viver só por Ele. O amor não-maltrapilho. A última vez que fui na casa das irmãs encantou-me uma noviça. Pele de leite, cachos pretos tão bonitos, enrolados longos e decisivamente. Era até covarde estarem presos tão sem graça, num rabo baixo. Os olhos azuis. Jeans, camisa qualquer. As pessoas sublimes ignoram as aparências, vivem dentro do conforto das almas bonitas. Eu lá, dentro de um short apertada, pensando com a ponta da minha língua num último cara aí. Indigna.

De um, gosto do jeito que gesticula e de ouvir o meu nome. Na boca dele é sonoro. Não, sarah. Continue me negando, por favor. Rapazes das costas fundas. Estou afundando. Quando a barba traça o desenho da boca. Quando entende de cinema e música. Quando carne sobra ao invés de faltar. Quando não há distinção entre pupila e íris, quando resolvem as coisas de forma pragmática, quando caibo bem nas paredes, quando... já era. Meus pseudo-amores têm a duração das minhas unhas: se o esmalte for vermelho no máximo três semanas sem quebrar.

Voz melodiosa, olhar distante, poesia, me dá vontade de chorar, certa graça desamparada. Nada adiantou. Nenhum mereceu três linhas de versos. Amor é ilógico. O biológico a gente doma. Um por vez, mordo e assopro, isso pode isso não, me solta vem cá, conciliamos de acordo com as circunstâncias.

Não confio claramente em quem sabe exatamente onde tá minha cintura. Nos outros eu finjo confiar. Homem não pode ser esperto e os bobos não me interessam. Sei que sou cínica. Não tenho estômago para mãos dadas num salão de festas ou para sentar do lado em um sofá da sala. Prefiro o mistério que me cerca numa esquina, onde me espreita só a lua - ela não cobra que eu permaneça depois. Não amo, mas me divirto muito. Desculpa, mãe. Eu sei que tudo que cê queria era um narizinho bom, que me levasse de mãos dadas para missa. Infelizmente, só a ideia já me deprime. Mas uma hora eu canso, sem pânico. E para missa eu sei bem ir sozinha.

Era para falar de amor, mas não posso falar do que eu não sinto. E nem mereço. Afinal de contas, meu nariz é dos piores mesmo.