quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O borrão.

Ele abre a porta sem fazer questão de esconder o sorriso sacana que traz nos lábios. Ela sabia. Vinha tremendo desde o momento que havia deixado sua casa. Na verdade, tremia desde o seu “sim” ao telefone. Ele dissera, “Hoje a noite vou ficar sozinho aqui na república. Vem aqui?”, e o sim que ela dera não era para essa pergunta. Era o sim para o sexo. E o adeus a sua virgindade.

“Oi”, ela disse desfiando os olhos para baixo. O tremor em seu corpo atingira um grau incalculável. Não sabia onde colocar as mãos, ou o que dizer. Sua expressão corporal o implorava: aja, eu lhe suplico!
“Oi”, ele riu. Superior, tranquilizante. Ele era lindo. Sem mais delongas, pois ambos sabiam o que iria acontecer ali, ele a puxou para dentro. Bateu a porta, prensou-a na parede e começou a beijá-la. A sensação era boa, mas puramente física. Assim como tudo entre eles. Entretanto, era inevitável sentir-se protegida nos braços de alguém, mesmo que essa alguém só buscasse apertá-la para seu bel prazer. A frustração que ela sentia no frio do pós-contato quando ele a deixava, era compensada nos momentos juntos. Os beijos que por parte dele eram frívolos, mesmo que momentaneamente, aqueciam-na até a alma.

Ele lançou-a sobre a cama, ambos só de peças íntimas. O peso daquele corpo masculino sobre o dela, lembrou-a brevemente o peso em sua própria consciência. Queria sustentar a ilusão de ser especial, mas era estúpido demais cogitar tal hipótese. Até para ela. Afinal, a consciência era suavizada pelo consolo. Teria que aceitar as migalhas mesmo. Aceitara as migalhas do afeto dos pais, migalhas de família, amigos esfarelados. Precisava consolar-se com as migalhas do amor também, contentando-se somente com sua face mais miserável: o prazer físico. Há tempos estava machucada pela vida injusta a qual vivia, e essas migalhas nunca traziam felicidades. Contentava-se com os piques de alegria. Deixou-se ser subjugada, possuída. Dolorosamente usada. Somente para desfrutar do seu mais novo e fascinante momento de alegria, de sentir que alguém a necessitava e queria, ao menos para sentir prazer.
Quando tudo acabou, ele beijou-a na testa. Num ato cínico que transparecesse algum cuidado inexistente, contrastando com o sentimento que ele trazia em si: vitória, mais uma entrega alimentadora de seu ego machista.

Diferentemente do que um dia sonhou, não podia passar a noite lá com ele, entre velas apagadas, carinhos, declarações de amor e muito cuidado. Precisava ir embora, para dar satisfação aos que chamava de pai e mãe. Despediu-se dele e foi embora, sentindo aquele processo da necessidade do sexo desencadear dentro de si. A busca constante por mais momentos de êxtase e importância, por mais passageiros que fossem. 
Foi-se sendo só mais uma mancha de sangue sobre os lençóis dele. Tornando-se cada vez mais somente uma mancha. Ela própria, uma mancha por inteiro. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário