Cara Sarah,
É estranha a sensação de estar aqui comendo este brigadeiro e pensar que em algum momento, todo esse doce se tornará gordura quase crônica, porque com o passar dos anos o meu ânimo para emagrecer que já é bem pouco, se esvairá até desaparecer por completo.
Os meus problemas com peso são cômicos, por perdurarem por tanto tempo. Espero que ao ler esta carta daqui a uns quinze anos, eu já os tenha superado. Aliás, é por isso que dedico-me a ela neste instante. Preciso, num futuro, prevenir-me de algumas coisas e lembrar-me de outras.
Tenho dezesseis anos, sensação física de uns vinte e alguma coisa, mente de uns quarenta e cinco, concebida por muito convívio com pessoas, ideologias, oportunidades e situações. E por que não colocar também meu próprio mérito em minha atual concepção das coisas? Talvez uma outra pessoa não visse a vida com meus olhos, mesmo se a tivesse vivido de forma idêntica. Afinal, a personalidade é essa coisa misteriosa e indecifrável, na qual os fatores externos são recebidos de forma diferente por cada pessoa. Em um, o doce torna-se amargo, noutro, amargo se torna doce.
O fato é que não sei se me orgulho ou desprezo por aquilo que me tornei. Pois, sinceramente, é muito antipático ter antipatia da sociedade. Quero superar tudo isso. Eu realmente queria me encaixar, queria pertencer em totalidade a algum lugar. Por outro lado, é engrandecedor libertar-me dos paradigmas e conseguir construir-me absorvendo aquilo que é coerente para mim em cada lugar, mesmo que isso cause um isolamento social e coloque minh’alma num eterno estado de agonia. Chega um ponto, que ser feita de vários caquinhos de vidro, poderá me conduzir a dois caminhos: posso tornar-me um vitral colorido, quase canônico, que flutua acima da banalidade com o jeito simplório que os sábios possuem, ou apenas uma infinidade de cacos que não combinam entre si, sem contexto ou beleza alguma, possuindo como capacidade única o “dom” de cortar. A segunda opção são as pessoas que sabem demais sem saber de nada, sempre regurgitando fel intelectual sobre os outros. Abomino a ideia de ficar assim.
Talvez esse seja meu maior objetivo para daqui a alguns anos: superar essa minha indecisão, esse coração flutuante, o não saber quem se quer ser. Apesar de que, sinceramente, acho que vou morrer sendo mil e uma, pertencendo e indo, querendo e não querendo. Esse é um aspecto meu que vem se acentuando com o passar dos tempos, não imagino o processo contrário começando a partir de agora.
“Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem”, disse o poeta de Minas. Desculpe-me mestre, mas terei que discordar. Com o passar dos anos, as palavras meta, objetivo e estabilidade, aparecem em substituição às palavras sonhos, vontades, ideias. A garotinha que sonhava em ser professora desiste, pois lecionar não lhe renderá uma boa situação financeira, o músico torna-se músico nas horas vagas e matemático em tempo integral. Quem dança, canta, atua; vai contar, construir e pesquisar. Será que eu vou seguir escrevendo?
Será que daqui a alguns anos, sairão de mim parágrafos que vão além de relatórios técnicos? É quase humilhante ter que admitir, mas acho completamente possível que a sociedade me corrompa com seu capitalismo que não é um sistema econômico, e sim um estilo de vida imposto ao mundo. Serei eu dissolvida nesta sopa econômica? Vou aprender a enxergar somente meu umbigo, lançando em seu interior aquilo que me farão acreditar que eu necessito? Se não conseguirem quebrar os meus princípios, é provável que me coloquem num estado de comodismo consciente, o que é muito pior. Desta forma, lerei o jornal, agirei com consciência em todas as circunstâncias, mas não gritarei para o mundo fazer o mesmo. Inteligente e quietinha. Infelizmente, é assim que me imagino daqui a algum tempo.
Se eu estiver assim, pode parecer complicado, mas dá para, por favor, se mover, dona Sarah?
Lembra-se dos olhos brilhando, do amor nutrido pelas pessoas e pela arte? Lembra-se das lágrimas inconformadas pela não compreensão da maldade do mundo? Então, por que toda essa frieza conformada agora? Pode ser que com trinta anos eu não pense mais assim, mas acredito que se nosso ardor adolescente, movido pela confusão e as ideologias fossem mantidos por toda a vida, aquele nosso velho clichê que lá pelos vinte se torna cafona se concretizasse: mudar o mundo.
Daqui a tantos anos essa carta pode soar ridícula. Um devaneio, uma “coisa de adolescente”. Mas se ao menos uma lágrima, ou um sorriso sincero ela me arrancar, quer dizer que não está tudo perdido. Algo permaneceu vivo aí dentro.
Atenciosamente,
a Sarah de dezesseis anos.
Só não conseguimos o que não queremos o bastante.
ResponderExcluirGK
concordo. (:
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