terça-feira, 4 de novembro de 2014

três minutos




Escrevo pra dar forma ao sentimento.
se não me levanto pra construir os versos
de manhã eles não existem mais.

não sei porquê nasci
não sou nada.
nem gorda
nem magra
meus cabelos não definem
em cor ou tamanho
vocação para beleza não tenho
mas nem pra ser feia
eu servi

meu corpo me domina
e as duas da manhã
levanto pra arrumar o colchão
e fazer um miojo.

como pode ser a vida

tão sublime e tão vulgar?
a boca que come miojo
comunga também o Corpo de Cristo.

descasca o esmalte na minha unha
na torre do Rosário tocam o sino 
essa cidade tem irmãs enclausuradas

se não há rapaz que me apaixone 
como as freiras,
por que eu insisto em pegar tantos copos? 

miojo é uma palavra indecente.
é a frase que minha mediocridade
concebeu para aqui concluir. 






quinta-feira, 23 de outubro de 2014

isso merecia ser escrito?

Eu não mereço um amor. 
São João me induz ao erro.
Os que me entretêm por mais de 5 segundos
não podem ficar

dos outros eu quero partir

se  tivesse um amor
eu matava devagarinho 
cozinhava em fogo baixo
que eu nunca fui de gritar

aos rapazes de boa intenção
meus sentimentos

mas minhas boas inclinações se perderam. 

domingo, 19 de outubro de 2014

jornalistas


Um homem
invade 
a guerra
porque pede
sua profissão

jornalista.
a câmera que filma
o momento
do tiro
não mostra
o que nele 
é humano:

um coração 
que quase parou
para 
poder
informar

me repito
o Filho do Homem
não tem onde
reclinar a cabeça

o jornalista também não.

estamos exatamente
onde profissão
quis casar
com paixão

terça-feira, 14 de outubro de 2014

mas quando ela dança



Deito na cama e não durmo. O que São João del Rei faz com uma pessoa? Sódio, fritura, álcool. Mata. Eu vim conceder celulite às minhas pernas, e ouvir meus professores dizerem que serei pobre? Nem tudo está perdido: há aquele inconfundível som, das rodas de carro contra as ruas estreitas de pedra sabão. Em certo ponto, vende-se picolé sem embalagem, com pedaço de fruta, bem ali, no pé do morro da casa de uns meninos estranhos. É bonito como se erguem imponentes, as igrejas rebuscadas de anjinhos de mármore, contra um céu incrivelmente azul. Antes eu não me sentia em casa, agora minha gaveta da cozinha tem xícaras. A marca do café é a mesma que dona Maria compra. A diferença é que ninguém me chama de "fia",  não rezam o terço comigo, e uma e quinze da manhã, empurram minha janela me gritando. É sem medo que afirmo que universitário é uma raça, e das mais ordinárias possíveis. Vivem gritando pelas ruas de madrugada, pregando os chãos com bebida, atormentando vizinhos com música ruim. Desonestos, mentirosos, preguiçosos, dissimulados, interesseiros. Incrivelmente espertos para raciocínios ruins. Não parece que estamos construindo um futuro. Ficamos maltrapilhos quando nos botaram o seguinte peso nas costas: sejam alguém. Preciso de um bom CR, de um curso de inglês, de um currículo extenso, de tirar ao menos 6 nessa prova, de fazer um curso que não seja jornalismo... de um copo de gummy. Não sei editar videos, fazer cartazes, elaborar perguntas pertinentes, nem tenho uma grande câmera preta. Trouxe comigo só meu excesso, as linhas tortas e essa insaciável paixão. Se o Filho do Homem cursasse algo, seria jornalismo. Se eu fosse freira, cuidaria de um jardim. De rosas, e um dentro de mim. Tenho essa vontade de amar o mundo, e quando toca uma música bonita no carro, alguém pergunta o nome, é o fim da aula, e estamos indo embora na noite escura, eu amo. Quando a Leite de Castro está confusa de carros, fumaça e gente de cara feia, e eu quero desacreditar, uma música bonita toca no telefone também."Tell me how I'm supposed to breathe with no air?", me dá até vontade de ter um amor bem doído. Acordo de madrugada com sede excessiva e as canelas roxas, os sapatos na área estão atolados de barro, mas é bonito morar numa cidade recheada de palavras como largo, pelourinho, mercês, pilar. Sinos repicam à senhora morta. Essa gente cheia de "boto fé", "ô viado", chamando festa de rock, é engraçada demais. Alargam em mim um sorriso sem muita reflexão. Não sei bem o porquê de estar escrevendo isso. Acho que é só pra contar que São João já me permite escrever.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Onipresente

Quando deito na cama
pra dormir
gosto de pensar que estou
na concha da mão de Deus
que me nina
a sorrir

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Ô, meu Senhor...

E como eu poderia ficar aqui, e não me comover com você?

ô Senhor, 
me volta uns dois anos e meio, 
me deixa chorar 
assistindo o teatro do grupo de jovens.

me deixa sofrer só um pouquinho
e ouvir falarem do amor de Deus
pela trilhonésima vez,
deixa uma mão boa pousar no meu ombro
e rezar por mim. 

quero voltar Amado, 
por uma blusa de malha com dizeres religiosos,
amarrar um rabo sem vaidade, 
por jeans, tênis
e dançar 
"quero louvar-te, sempre mais e mais"

deixa eu viver de novo
pelo Teu próprio Amor,
que enjoei desta carne miserável
lembrando
que não sou digna
da boniteza
do teu Infinito Amor.




terça-feira, 9 de setembro de 2014

?...


quando me deixaram
fechei uma prova
quando nasceram
Nathan e Felipe
descobri em mim
uma dolorida e absurda
capacidade de amar

quando vejo o azul
dos olhos da minha vó
quero que virem um mar
de sofás, café, e terços
rezados com devoção
ansiando beber
essas gotas de felicidade
que perdi em são joão.

quando. 
quando você vem?