quarta-feira, 20 de abril de 2016

Recatadíssima.

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às vezes me quero.
às vezes me dou.
às vezes me invento.
às vezes só sou.

não podem me por
um ponto final
se quero uma existência
em reticências. 

não tô vendo Deus
medir
quantos dedos abaixo 
dos joelhos
 estão as saias. 

por isso entro na igreja 
e toco o sacrário 
com o meu amor e
minhas carnes quentes
mesmo que me reprimam com o olhar
as beatas sem fervor.

meu pai diz: 
você vai sair com esse rabo de fora?

respondo:
vou, pai. 
o rabo é meu. 




domingo, 17 de abril de 2016

Vai ter luta


A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão - Apesar de você, Chico Buarque 

Brasil.
Brasas.
Fogo ardente que reverbera nas cordas vocais deste povo que, desde suas origens, teve que aprender a gritar contra as indignidades que lhes eram impostas. Esta terra se construiu com gente que precisou, desde sempre, flutuar por cima da dor: índios que tiveram sua vivência restruturada por hábitos que lhe eram estranhos, portugueses saudosistas, cantando tristes fados à terra natal abandonada, negros traficados, angustiados por perderem sua África e a condição humana pela escravidão. Um povo que tinha tudo para lamentar um futuro. Nação originalmente triste, que no ventre deste solo de proporções continentais de tão exuberantes riquezas, se gerou entre lamentações e a falta de tantas coisas.

Gente que tinha tudo para ser cabisbaixa, viver com olhos rasos e razão conformada. Terra que foi primordialmente lugar de poucos, onde a maioria era apenas massa de manobra do interesse dos grandes. Mas o ardor fogoso que carregamos no nome não nos permitiu o conformismo. Somos gente de víscera. De histeria. Do gosto pelo escândalo necessário, gente que, quando quer aperta firme a mão do irmão e vai adiante. E nos misturamos tão profundamente, nos entranhamos uns nos outros porque somos curiosos por natureza. Fizemos da nossa genética um verdadeiro vitral. Variados cacos de diversas cores num encaixe absolutamente perfeito, curiosamente belo.

É por isso que não importa o quanto os velhos dominadores que insistem em permanecer no alto desde o dia que desceram de navios briguem para continuar esse ordem. Nós não vamos permitir. Sabe por quê, meus queridos? Esta terra aqui é de todo mundo, e ninguém pode querer se fazer mais. Brasil é lugar de Chico Buarque e Milton Nascimento, Gilberto Freyre e Carmen Miranda. Olga Benário e Anita Mafalti, entre tantos outros e outras, que mostraram nossa beleza original.

Aqui meus raros, é terra de qualquer credo, cor, classe social. E se não é ainda por completo, vai ser. Porque não vamos parar até conseguir. Repiquem os tambores dos terreiros, porque Iemanjá, Iansã, Xangô, vão ficar. Aumentem o som porque, vai ter a gente do funk, do rap, do samba, da periferia e do centro dançando sobre as avenidas de nossas cidades tão lindas. Porque aqui é lugar de quem quiser. Preto, branco, gay, hétero, alto, baixo, rico, pobre. O Brasil é como nós minha gente: adaptável. Somos escorregadios, espertos, multifacetados e coloridos de uma forma que qualquer outro povo sobre este globo desconhece.  Temos homens de mãos seguras e mulheres de quadril largo. Acreditem: ninguém pode com a gente.

Os cálices serão devidamente afastados porque Jesus Cristo já morreu e ressuscitou pelos pobres e oprimidos. Ninguém vai ficar bebendo cálices de fel imposto pelo poder alheio. Ressuscitaremos sempre nossas lutas.

Por isso, para quem acha que vai conservar nossos antigos erros ainda não corrigidos, só digo uma coisa. Cuidado.

Porque apesar de você, amanhã vai ser outro dia.


Ouça Apesar de Você - Chico Buarque.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Mataram meu Senhor


Hoje é o dia mais triste do ano.
Às três da tarde, paralisa o tempo. Sexta que em todos os anos incansavelmente se faz nublada. As pessoas esquecem as carnes, as vaidades, os fardos cotidianos e se estacionam no dia. O céu pesa quente de nuvens cinzas. Na minha igreja os freis entram em silêncio, enquanto Ele, descido da cruz, repousa sob pano vermelho em frente ao altar. Mataram meu Senhor.  Pilatos lavou as mãos e soltou Barrabás, a multidão agitou injusta poeira e pediu que assassinassem aquele que, segundo eles, se dizia o rei dos Judeus.

No desconforto do banco de madeira da igreja, enquanto observo os mais diversos tipos de pés na fila até o altar, só sei pensar que não consigo acreditar numa humanidade que matou Jesus Cristo. Há esperança? Pergunto-me. Tento pensar em tanta gente boa por aí. A minha vó, que gosta de cozinhar pros outros, as irmãs que cuidam dos deficientes mentais, a moça que de tão delicada tatuou "delicadeza" no pulso, que é da Arquitetura e gasta seu tempo construindo uma casa para o menino autista. Ainda assim, é como se o ar abafado do dia fosse envolvendo-me e sufocando a fé que tanto quero ter. Há um vão entre o bem o mal, sinto que a balança pende para o lado obscuro da nossa fraqueza humana.

Aqui mesmo, dentro desta igreja franciscana. Alguns padres alongam as celebrações por puro prestígio, os corais envaidecem as vozes. As senhoras gordas que se mostram bonachonas, colocam os dedos de unhas mal pintadas na frente da boca para cochichar sobre pessoas que costumam cumprimentar com simpatia. Eu mesma: senti raiva obscura quando numa quinta-feira santa expuseram meu Senhor, agoniado por saber da morte que se aproximava, e as pessoas se juntaram em grupinhos pela igreja para conversar com risinhos baixos. Morro lentamente com pessoas que se dizem boas e ao invés de semearem simplicidade e exemplo bonito no mundo, defendem radicalismos exacerbados. Enveneno-me quando às vezes, eu mesma sou essa pessoa.

O meu grande sofrimento sobre esta Terra: tento, mas não consigo ser boa. Quero um amor genuíno, mas me vejo brincando com os rapazes. Deveria visitar o Albergue, mas nas tardes não preenchidas por tarefas, prefiro cochilar. Passo diariamente na porta de umas cinco igrejas, e muitas vezes não entro em nenhuma para reverenciar Aquele que, todos os dias me sorri através do sol. Deixo minhas novenas pela metade, dentro da igreja reparo na senhora que usou blusa de uma estampa e calça de outra mais do que na homilia.

Ô meu Jesus, estive na vigília ao seu lado, mas quem sou eu pra julgar o mundo de ruim? Se sou como essa gente, apodrecendo pelas beiradas, definhando pelas minhas futilidades e desejos dispensáveis! Eu pedi, na quinta-feira: Ô Senhor, quando fores pro Pai amanhã, que ao Teu suor e sangue apavorados, se misture minha humanidade baixa. Leva toda essa impureza de mim. Deixa-me chegar perto de Teresa, Chiara e Francisco.

Nesta sexta-feira que contorce o mundo, os cravos, o sangue, a coroa de espinho e a cruz de madeira se unem à Ele, na morte que vem com o mormaço das três da tarde. Tentativa pulsante do Amor de salvar a humanidade.

Ô Senhor, perdoai.  Te mataram. Te matamos todos os dias. Na fome africana, nos tiroteios, na guerra, nas disputas por poder, na intolerância e na incompreensão diária que instauramos sobre o Éden que nos concedeste em sua criação benigna. Eu olho para Tua cruz e mesmo eu sendo insignificante partícula, sinto dor. O vinagre amargo que te deram na boca é a sede ansiosa que temos de Vós: aguardamos a Páscoa do mundo.

sábado, 12 de março de 2016

Desculpa.

Não há formas
de me conter.
Não há argumento
que segure minha mão
prende-me por
meia-hora
essa sua
 tatuagem na perna

quem fará parar
o líquido gelatinoso que sou?
o dom
pra caber numa
infinidade
de recipientes
me faz escorregar
indecorosa
por tantos braços
vontades
suspiros

não sou de tudo cruel,
eu ligo.

importo-me
se sofrem
e amargam a boca
grito histérica e louca

externo
minha incoerência
empurro e
puxo de volta

mudo mil vezes
o tom do batom.

os rapazes me entretêm
por instantes fotográficos
de paixão superficial.

depois
pego nos meus terços,
rogo,
ó Maria, ó Maria

salva-me deste fogo que
em mim queima
é que definitivamente não é
o ardor de Pentecostes
que vem do Espírito de Deus.





domingo, 21 de fevereiro de 2016

angústia


eu sou um abismo
quase sempre
prestes a ruir 
indo e vindo 
indo e vindo
balançando
na beirada 
de mim 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

imprópria



me deixa
te segurar entre os dedos
barroca
entre o barro
que tampa
meu oco


ô moço
há uma curva
entre sua cabeça
e pescoço
que planejei
maldosamente
habitar

sábado, 30 de janeiro de 2016

igrejinhas

Igreja
é sempre coisa bonita
no meio
do lugar

pode ser cidadezinha velha
entristecida e pequena
casinhas descascadas
acumulando velharias no portão.

O muleque pode tá feio
 de pé preto e sujo
a bola pode ser de remendo
manchada de cor

ainda assim as pessoas se lembram de pintar a igrejinha
enfeitar seus pedestais com flor