A frase "A existência é um fardo" não me sai da cabeça, e abomina-me pensar que eu a pensei.
Hoje eu descia pelas ruas do centro sentindo na pele um calor abafado, no ar um cheio de mato urbano.
As pessoas transitavam em direções variadas, focadas em diferentes objetivos, sem se lembrarem que estão todas no mesmo barco, este barco chamado Terra, no qual a carranca é uma grande interrogação.
Ocorreu-me de repente uma ideia: estamos no útero de Deus, e somos paridos na morte. Nascemos quando morremos.
Entendo as pessoas com insônia: é o que acontece quando você se deita na cama, e sente a escuridão do quarto crescer à sua volta. Uma solidão incompreendida invade-lhe a alma e sente-se que a solidão e o escuro se fundem num monstro, que irá lhe engolir se dormir. São nessas noites que fecho os olhos e penso repetidamente: "Quero sonhar, quero sonhar, quero sonhar". Nunca sonho. São nessas noites que penso no meu medo da chuva e também na minha necessidade dela. Acho monstruoso que as pessoas se escondam da chuva, ela que vem com as melhores intenções: lavar, refrescar, renovar, fertilizar.
Mas nada disso importa. Aprendi a descascar laranjas.
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