quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Um dia qualquer em Divinópolis

Já reparou o tanto que esse quadro da Márcia é bonito? Não vó, não tinha reparado.
É uma perfeição de santa ceia. É ponto cruz. Faço ideia o trabalho que isso deve ter dado.

Quanto tempo ela demorou vó, cê sabe? Uai, me parece que foi um ano. Quem faz um quadro de presente por um ano tem é a alma bordada,né vó. Pensei.Quantos pontos de amor terão nele? Comentei não. Só comi o minguau de aveia com fubá em silêncio. Um bicho passou voando e bateu bem na teia da aranha. Vó, sabia que ermida é o nome da capela que tinha nas fazendas coloniais? Tinha ermida na casa do seu avô? Não, tinha não. Mas oratório tinha (ah, o museu de São João tem um tanto de oratório), tinha uma parede lotada de santo. Engraçado, cê acredita que lá no quilombo, sendo pequeno do jeito que era tinha duas igrejinhas? Ó. Estamos na copa e está quente demais em Divinópolis, rezamos o terço no sofá ao lado do presépio, já ornado com Jesus bebê.

Mãe, tô querendo comer mais carne não (ela chega com latas de sardinha). Fui caminhar hoje e não dei conta, tava quente demais, fui de calça para passar na igreja (há em mim resquícios de temor a Deus). Cheguei na Catedral, rezei e voltei. Esta igreja é a seiva desa cidade, sem ela não tem vida. É aquele teto pintado de santos e o tom amarelo mistério que deu vida à tudo isso em Divinópolis: casa, árvores, praças, crianças, bares, cães. O livro da vocação carmelitana diz: não nascemos para nós, e sim para Deus e para os outros. Pequei quando debochei da minha mãe. Olha, Sarah, que gracinha (monstrando um guardador de papel higiênico todo bordado de flores). Quanto cê deu nisso? Vinte reais. Nossa, mãe, não acredito que cê gastou vinte conto comprando um trem de guardar papel higiênico. Que que tem? É bonito, aqui em casa nunca teve, eu sempre quis ter um. Ofendida. Desculpa, mãe, vou ler mais sobre a vocação carmelitana. 

Gosto da manhã e da tarde, horário de almoço me deprime. O sol é muito amarelo, o dia para, estamos no meio sem estar em lugar nenhum. Comi sopa de legumes. Essa cidade me trás saúde, a outra me tira. Gosto dos moços sem excessos, pela metade que nem eu. Amor é coisa que assusta. Esse caso divertiu dona Maria ao contar: eu morria de medo do palhaço do reinado, teve um dia que passei aperto demais com um quando era menina, ele tava na mesma casa que eu, e eu apavorada. Depois de um tempo, namorei o rapaz!Flertei com o mocinho que fazia o palhaço, vê se pode! Flertar é palavra que minha geração desconhece, vó. Somos rasos. A grande questão da noite: qual a diferença entre reinado e folia de reis? O bicho na copa solta-se da teia de aranha e volta a zumbir nos ouvidos, passa um carro barulhento lá em baixo do prédio, mas a rua parece estar tão longe. O apartamento é um lugar a parte do mundo. A noite é quente, o presépio sutil, as contas dos terços coloridas. 

Vó, cê merece todos os quadros bordados com ponto de amor do mundo, mãe, cê merece todos os guardadores de papel higiênico. Eu é que sou indigna de habitar a beleza deste lugar.

2 comentários:

  1. Também sou apaixonado pelos ares desta cidade do Divino. Lindo texto Sarah parabéns.

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  2. Obrigada! Fico feliz que tenha gostado, volte sempre, Gustavo. :)

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