domingo, 12 de agosto de 2012

Tons de cinza.



Através da porta de vidro entreaberta ele a via recolher as roupas do varal revolto pelo vento impetuoso,  que também fazia entrar-lhe pelas narinas o cheiro confortante da chuva próxima. Conforto. Adorava o cheiro da almofada com a qual estava abraçado, era a que ela costumava se deitar e cheirava doce e suave como seus cabelos. Cabelos com os quais ela brigava agora, com a cesta de roupas sob um braço. Com a mão que recolhia as roupas, tinha também que limpar o rosto dos cabelos que o vento insistia em jogar em seu rosto de anjo. Anjo caído, como ele costumava lhe dizer. Porque ela tinha no rosto aqueles traços serenos e os olhos grandes e brilhantes como as divindades angelicais, mas também trazia sempre aquela expressão de consciência dos sofrimentos deste mundo, os quais os aéreos e perolados seres do Senhor não possuíam. O cheiro do refogado de frango ainda na panela também serpentava, mesmo que agora timidamente, pelo ar. Os pratos ainda estavam sujos, e ele estava apenas descansando um pouco para ir limpar. Aquele refogado estava incrível. O quanto ele estava se fartando desde que ela havia se mudado para lá, era inimaginável. Vivia como um rei para quem anteriormente sobrevivia a base de congelados, café e omelete. Agora tinha uma fruteira cheia de cores, verduras frescas diariamente, o famoso e já esquecido por ele almoço de domingo e aquela voz de sino cantarolando diariamente pela casa. Ligou o rádio na modesta prateleira de latas na cozinha para se distrair enquanto lavava os pratos. 

Dias soltos no quintal, vão me dando a direção. 
Se você perguntar o que eu fiz, se você quer saber o que eu quis.

Como alguém podia ter aquela serenidade, aquela alma dilatada que sempre cabia mais amor e também mais dor, olhos vividamente brilhantes e belamente tristes ao mesmo tempo, estar tão envolta em mistério e revelação paralelamente, ele já cansara de se perguntar. Ser toda serviço, ouvidos, divindade. Vida pulsante e desesperadora. Se acreditasse em bruxarias, afirmaria sem dúvidas que havia lhe lançado um feitiço mais que certeiro. Lembrava e degustava com gosto todas as lembranças, de forma especial as vezes que observando o luar do apartamento da casa dos pais dela, ficavam contemplando a lua em silêncio, descendo às profundezas do universo e daquele amor em tons pastel. Cores coloridas, porém calmas. Tudo que sentiam era nobre e grande demais para ser dito, sentido por inteiro de alguma forma. Traduzia-se no silêncio dos olhos que mergulhavam profundamente uns nos outros, devorando a alma alheia, refugiando-se no grande bombeador de sangue e sentimentos. A sensação que ele tinha de se ser em outro corpo que era o dela, não era suficientemente explicada de forma alguma. Como ele recordava o café ao som dos Beatles, as ideologias da qual gostavam de debater as falhas para quando fossem salvar o mundo, corrigirem erros que levaram ao fracasso. Despertava nele um profundo respeito e grande admiração, quando ao contar-lhe qualquer atrocidade a respeito de nazismo ou afins, via os olhos da amada marejarem de lágrimas, a confusão de uma alma boa demais para compreender a maldade do mundo. Quando ficavam juntos, deitava sobre seu peito só pra ouvir aquele coração palpitar aquela maravilhosa existência permitida por Deus. 

“Cara, o quê essa guria te fez, me conta?” ouvia dos amigos, às vezes em tons de pilhéria, às vezes incompreensão. Ele sorria sem graça por não ter uma explicação. Diria se achasse que valia a pena: “Entra neste peito aqui e sente. Sentiu? Pois é, monstruosamente grande, né.” 

“Um dia vamos sorrir, uma lágrima comovida por Deus permitir a nós essa felicidade tão completa e simples vai rolar. No outro, os olhos vão se encontrar sem brilho e na boca haverá o gosto da amarga confusão, porque não saberemos explicar como ou o porquê de ter simplesmente acabado.” Ele lera em seu caderno de versos, era o único que podia abri-lo e adentrar no universo dos pensamentos dela. E por mais que tivessem aquele trato de ele nunca pergunta-la sobre nada que escrevia, teve que perguntar desta vez. 

“É sobre nós?” 

“É.” Respondeu-o  olhando daquele jeito que seus olhos diziam mais que as palavras. 

“Discordo” ele dissera com cuidado, pois quando se falava dos seus escritos era necessária toda cautela. “o que é verdadeiro nunca acaba” e entrelaçou seus dedos nos dela. 

“Toda a perfeição acaba, porque nada deste mundo pode ser perfeito. Só Deus é.” 

Esse episódio preencheu de dor o coração dele. Mas o sol intenso que emanava daquela vida partilhada com ela, acabou por fazê-lo esquecer daquilo por um tempo. Agora, acabando de enxaguar a espuma dos pratos, se lembrou do acontecimento com a amargura citada nos escritos dela. Estava acontecendo. 

O ódio e a repulsa por si penetraram sua alma confusa fazendo-o provar um pouco do inferno, ao ver que toda a devoção, todo o amor incabível, toda aquela magia entre os dois não o fazia feliz mais. Impossível entender: era o mesmo encanto sentido toda vez que ela se aproximava. Mas era como se estivesse cansado, acomodado numa felicidade clandestina demais para um mundo tão ruim, com tantas falhas para corrigir. 

Voz, nuvens, cheiro de conforto e comida, estabilidade, sorrisos fáceis, pés descalços, preguiça de sofá. Não dava mais para se viver flutuando, acabar com todo o sofrimento assim. Não se pode neste mundo, envolve-la nos braços para sempre e agir como se aquela vida fosse o centro de tudo! 

A verdade é que a frase “só seu amor, e tê-la aqui me bastam” que ele tanto proferira convicto a ela diversas vezes havia se tornado uma mentira. Não bastava mais. Um incômodo no peito lhe crescia e a luz de sua menina parecia agora ofusca-lo, mesmo ele ainda amando se aproximar daquela luz. Ela sabia desde sempre: toda vez que ele dizia-lhe isso, ela murmurava um risinho irônico e amargo. Amava-o, mas sabia que era um imbecil, que acabaria por decepcioná-la em algum momento, e que não adiantaria nem um amor que de tão grande era inexplicável para salvá-los da droga que ele era, da droga que sentia-se agora. 

Ele amava, ele admirava, ele se encantava. Mas ele não queria mais. 

Acabou de lavar as coisas, lavou e enxugou aos mãos. A música do rádio ressoava, com um hino de consolo e desconsolo, explicação inexplicável. 

Ah, o tempo passa e eu penso demais
Pra dizer ao vento que me satisfaz.


Vento bom, os dois. Bom demais, levava as nuvens embora e deixava o sol brilhar. Mas o calor que vinha era bom até certo ponto, depois tornava-se insuportável e precisava de chuva. 

Ela abraçou-o por trás, o cesto com as roupas limpas jogado sobre o sofá. Virou e apertou-a em seus braços como se quisesse mudar de ideia com a intensidade daquele contato. 

Não mudou. Suspirou agonizado. Como explicar que aquela felicidade estava incomodando, que a amava e sabia que lhe era perfeita e certa , mas que precisava deixa-la? Talvez fosse fácil se libertar, talvez houvesse um depois que trouxesse conforto a ideia: podiam chorar copiosamente, necessitar do calor do outro e com um reencontro desesperado sentirem-se suficientes um ao outro novamente. Talvez ele a magoasse e reconquistá-la fosse uma tarefa ardorosa e despertadora da sensação de estar mais uma vez completo pela menina da sua vida. Era necessário o fim infindável. 

Ela entendeu o suspiro, ele sabia. A percepção intuitiva dela era insuperável, um piscar de olhos bastava para a sua menina. 

“Tá tudo bem. A vida é assim mesmo.” 

É. Só Deus era perfeito e infindável. 

E eu sigo
E eu minto 
E eu sinto


(OB: Trechos e inspiração da música Hotel - Sabonetes.)

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