quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Ê, vó.



Qualquer forma de indignação, xingamento ou desconsolo é inútil, meus caros. É da essência do idoso ser teimoso e birrento, ter o desejo de impor suas vontades. E raciocinem comigo: nada mais justo que isso! Alguém já tão vivido, tão sofrido (pois bem sabemos as infindáveis dificuldades desta vida), que já deve ter levado sobre sua coluna cansada inúmeros desaforos,  deve possuir o direito de erguer a voz contra aquilo que o insatisfaz nesse nem um pouco pleno fim da vida! 

É por isso que mesmo vendo minha mãe espumar de raiva às vezes (contra sua sogra ou a própria mãe), impaciente com as coisinhas da idade de ambas, a única coisa que sei fazer é rir com tantos problemas e reclamações por situações criadas nas cabeças brancas das avós, defeitos onde nós não enxergamos por eles não existirem. É a perna, o xampu que causa irritabilidade aos olhos, a dor de cabeça, a coluna, a dentadura, o filho desaforado... uma canseira sem fim, desmerecedora da dor de cabeça dos familiares aflitos.

Esses dias, ao chegar à casa de minha avó maternal, eu e minha mãe podemos presenciar uma das reinações de dona Nair. Em frente sua casa há um pequeno morro de terra, no qual minha mãe na maioria das vezes atravessa o carro para lá, de forma a deixa-lo bem na porta da casa. Neste dia isso não aconteceu. Estacionou o carro do outro lado da rua e ao chegar ao pé do morro, lá estava a minha avó. Fazendo o quê? Foi exatamente o que minha mãe perguntou. 

_ Uai Sueli, a mulher que mudou pra cá é desaforada demais, _ agora pude perceber que ela quebrava grandes pedaços de isopor para enfiá-los num saco _ pegou esses trem que vem quando a gente compra televisão e jogou tudo aqui na porta de qualquer jeito. 

Minha mãe estava de braços cruzados, enquanto minha vó ia quebrando enfurecidamente o isopor para que coubesse na sacola. Falou com uma voz de quem acha um pouco de graça. 

_ Mas a senhora é boba demais mãe, vai ficar catando o lixo da mulher? 

_ Não é ser boba não, _ neste momento começou a exaltar-se, muito nervosa com aquela simples situação. _ deixa esses isopor jogado aqui, vem um cachorro e rasga esse trem de tudo em quanto é jeito, faz uma desordem, uma sujeira aqui! 

_ Mas é ela quem tinha que fazer isso, né não? 

_ Pois é Sueli, só que num faz. A CACHORRA, SAFADA, A SEM VERGONHA, NUM FAZ NÃO. A VAGABUNDA ACHA QUE OS OUTRO É OBRIGADO A CATAR O LIXO DELA, UAI. AÍ, TEM QUE CATAR!

Estava tentando amarrar o saco de lixo em postura de verdadeira batalhadora, como um exército encerrando uma grande luta. Porque a vida era difícil! Vivia-se, criava-se filhos e até mesmo netos, trabalhava-se cansativamente, para vir uma nova vizinha e encher-lhe o morrinho em frente a casa de quilos de isopores mortais! Cadê os revolucionários para atinarem contra este ataque aos direitos humanos, ao respeito ao próximo? Aquilo era motivo de desencadear uma terceira Grande Guerra! 

Minha mãe pareceu querer perder o tom risonho, entendendo a seriedade da situação. Foi minha vez de divertir-me, ao ver justo ela, que era tão nervosa (do tipo de mãe que estressa se você não coloca água no filtro), falar em tom contido, respeitoso e preocupado: 

_ Ô mãe, pelo amor de Deus, a senhora num pode ficar gritando ofensas para vizinha desse jeito no meio da rua, não. Isso dá processo, dá até cadeia! 

_ Aaaah Sueli, tem dó! Cê acha que alguém vai querer me prender por um motivo desses?! Uma velha de mais de 70 anos! Eu num vô presa, não. 

É, meus caros. Consolem-se. É assim que funciona, sendo necessária grande paciência para aguentar, pois eles aguentaram segurar as pontas amargas da vida por bastante tempo! Cuide-se, vizinha. Ela é velha. Apenas uma dica: se eu fosse você, não mexeria.

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