segunda-feira, 3 de junho de 2013

Tempo de pipa.


É só rodopiar, em busca do que é belo e vulgar.


Nada, é impressão não. Somos essa coisa atoa mesmo. Só não somos mais bobos do que essa sua estranha mania de girar o laço do vestido entre os dedos. Para com isso, menina. Torcer o laço não é torcer a questão, então nem adianta desviar esses olhos pro enfeite da roupa. Se eu oferecer um algodão doce, você olha pra mim? E se eu disser que sou um pedaço de nuvem, prestes a solver? Aí cê me olharia, eu sei. Olha, que sou nuvem é mentira, mas saiba que o que temos derrete no ar, facilmente. Se eu fosse você, aproveitava para encontrar meus olhos com os teus, antes do líquido. O líquido nunca tem a graça desse vapor, e acaba por desaparecer por completo. Você sabe, Lavoisier não vale pra essas coisas. 

Os dedos de unhas rosadas passando pelos cabelos, esses cílios oscilantes e longos, o apertar dos lábios, a forma de andar parecendo que vai cair a qualquer momento, fazendo a gente prender o fôlego na expectativa de te segurar, a voz macia... Você sabe que é mais culpada que eu. Para de desviar esses olhos, joga pro alto essa confusão. Que fosse menos inconsequente, mocinha. Agora, você não vai a lugar nenhum. Não mesmo. 

Medo não combina com isso, pequena. Eu só quero sentar bem ali, debaixo daquela árvore sob a sombra, ouvir uns passarinhos, te dar um algodão doce e ouvir você xingar, falando que é um absurdo alguém comprar açúcar em forma de nuvem. Eu sei que não é por isso. É porque você lembra que a gente também derrete na boca e acaba, junto com o doce. O palito - esqueleto infértil da história toda - a gente joga fora. Segurar-se nos restos não serve pra nada mesmo.

A propósito, agradeço pelo botão pregado na minha camisa, era uma dó não poder usá-la. É por isso que eu digo, cê finge que não, mas sabe que é adorável, que é como uma pétala. Só tive a sensação de que outra coisa foi pregada em mim, veio junto com o novo botão da camisa. Não, eu não me importo se você esquentar os pés gelados em mim, nem de você gostar de ficar em silêncio. Só fique por perto, gosto de te sentir respirar. É bom quando você existe assim bem baixinho, perto de mim.

O que você é, enfim? O que você quer, enfim? Querida, não temos motivos ou razões, não percebeu ainda? Cê fica chata com perguntas. Cante-me com suas afirmações, que são muito mais aconchegantes. Fala sobre os gatos, sobre copos-de-leite, sobre o quanto gostou daquele laço de cabelo que lhe dei. Vem, vou fazer umas pipocas, faz um brigadeiro para nós. Daqueles seus, que, pelas exageradas colheres de chocolate usadas  ficam puxa-puxa, estalando nos dentes. Só para me provar que seu gosto pode ser ainda melhor. 

Suas mãos estão sempre geladas, meus dedos sempre machucados de dedilhar violão. Gosto de como você sorri com os olhos. Essa sua risada debochada não descomplica esses nós que formaram nossos dedos entrelaçados. É... agora é uma boa hora para se ter medo. Isso é patético, você diz, e isso não me ofende. É apenas sua defesa de camaleoa se aflorando. 

Por qualquer palavra, por qualquer sorriso, por qualquer cheiro que lhe dou... vem você com essa risada solta, que é um dos sons mais gostosos desse mundo. Também acho isso uma bobiça sem fim. Mas fazer o quê, as coisas bobas são sempre as melhores, sempre as mais soltas, mais absurdas e tolas...

Faz um tempo já, eu sei. Mas é bom ir te soltando aos poucos, cortar as asas pena por pena, pra você entender que é hora de eu ir. Sei que você ama beijos na testa, mas desse sei que não vai gostar. Não gostar vai ser um sentimento um pouco constante agora, a respeito das coisas. Fazer o quê... no início você oscilou porque sabia que era assim, tive que insistir. Alguém precisava te ensinar a valorizar algodão doce e a empinar pipas. 

As coisas se encerram quando estamos flutuando. Sabe a sensação de achar que guardamos um biscoito mas descobrir que alguém pegou e só ficou o pacote? É...

Mas de repente, as folhas de outono rodopiam no chão. Passa o caminhão de gás. Lembro de cê contar que tinha medo quando criança, diz que já viu um estourar...

Deixei um bilhete, com aquele perfume que cê gosta borrifado e uma trufa de cereja. Estava lembrando do seu jeito engraçado de me abraçar pisando nos meus pés. Sei lá...


Esse texto foi inspirado na música Tempo de Pipa do cantor Cícero, e em algumas outras músicas do seu álbum. Não conhece o Cícero ainda? Assiste aí: https://goo.gl/W2wgPY

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