Às vezes a vida se perde em tantos entremeios. Hoje assisti três filmes, me deram chocolate, ouvi mil vezes Princess of China e lavei minha roupa suja - banalidades de um dia qualquer. Ainda vou rezar um terço, mas agora eu quero escrever. Às vezes parece que nós estamos desabando, que estar aqui é um constante estado de ruína. Os professores despejam conteúdo, as salas de quadros grandes e longos, lembrando o tempo inteiro o quanto é difícil ser bom o suficiente. De repente, estamos todos doentes: as gargantas inflamam, tossimos, febre, antialérgico e antigripal... virei refém de um estúpido remédio de pingar no nariz. Com a mãe ao telefone, ligamos nem que seja para lamentar: "Que cê tá sentindo, filhotinha?" Nada, mãe, só um corpo ruim. Também há em mim uma espécie de nódulo que se forma aqui, sob a garganta, nó emaranhado de sentimentos. Mas mãe, você não pode compreender isso.
É um estranhamento de viver nessa indefinição. De parecer ter a vida nas mãos, morando longe, bebendo e agindo como quero, mas totalmente refém dessa mesma vida.
Quer dizer, que tirania é essa, gente? De repente a gente tem que comprar remédio, compostos que nem sabemos o nome. Fazer um esforço absurdo para comer bem. As viroses que nos atacam vem com o excesso de álcool e de madrugada, a falta de tecido suficiente para cobrir o corpo nesses momentos. Quando eu subo esse morro enorme, cheia de sacola de supermercado, o sol me derrete, a vida escorrendo pelos poros... aquilo é o Calvário. A tortura que cada um de nós escolheu passar, pelo privilégio das delícias de estudar fora e por um tal de futuro que nos reserva sei-lá-o-quê. Não somos bons o suficiente, é fato. Nem maduros, nem completos. Já perdi a conta dos roxos nos meus joelhos, não lembro um terço de como eles aconteceram. Os sapatos atolados em lama no quintal apontam os lugares espalhafatosos, festas vertiginosas em que estive, em que sempre estamos.
A menina grita, embriagada, no meio do morro, que quer dar. A cidadezinha de pedras e ruas estreitas, das infindáveis novenas à todos os santos se assombra. As gordas mães e donas de casa, moradoras das janelas se escandalizam. São João del Rei não sabe conviver com esse fato: a vontade de dar. A gente não sabe se reprimir. Os meninos brincam, mas é poesia sim: "Que espécie de amor é esse, que o meu amor continua amando todo mundo?". Eu só acho que a gente desaprendeu a amar. Aceitamos o burocrático peso de estudar pelo futuro, mas não sabemos lidar com o mais simplório sentimento humano. Na nossa babaquice absoluta, conseguimos conversar por horas sem falar absolutamente nada, até porque, dependendo da quantidade de vodcka, a gente não lembra no dia seguinte. Nossas palavras estão ao vento, e nos encontramos tanto, que até parece que a gente não se sente sozinho.
A gente se sente sozinho o tempo todo.
"Once upon a time somebody ran, somebody ran away saying 'fast as I can'"

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