domingo, 9 de agosto de 2015

São só domingos.


Duas meninas moças. Shorts jeans com pernas muito expostas, blusinha qualquer. Sentadas no morrinho que fazem nas portas da garagem. Assunteiam os melodramas que protagonizam o ensino médio.

Dois rapazes. Um para dentro de casa, o braço se encosta no lado da porta, um suvaco -essa palavra de povo e de alma- aberto sobre o mundo, fala com o amigo, que faz que vai embora. Suspeito que conversam sobre carros. Sem-camisa, boné, bermuda, chinelos antigos. Naquela rua inclinada margeada por lote vago, onde sobe um manchadinho cão.

Sinhôzinho e cigarro de palha entendem-se no banquinho de fora da casa. Pra trás ergue-se um terreiro, onde integram-se: galinhas, terra, minhocas e chão. Um fulano-cumpadre passa, para, cumprimenta e conversa.  

As mercearias abrem de maneira mais meiga aos domingos. Durante a semana parecem torturadas pela sina dura daqueles que são trabalhadores e andam com passos rápidos, compram pão de forma e queijo para não ter que visitar a padaria em busca de alimento todos os dias. Funcionam mansinhas, com suas prateleiras estreitas e seus produtos nem sempre com preço. "Valdemar, essa azeitona aqui é quanto?"

No meio de nuvens que se esforçam para se formar, observei pender da janela as flores da minha madrinha e trouxe do café da igreja, pastéis fritos para dona Maria. Pio, latido, como chama os barulhos que os pássaros fazem? Do pé de tomatinhos minha vó não come, os pombos podem cagar nele. Agora imaginem aquela doninha pequena, parecendo um patinho, de olhinhos azuis e brinco de pedrinha verde falando cagar: a vida tem raríssimos momentos de graça.

Neste dia em que se come carnes assadas, recortei num papel um coração pro meu pai, dei presente qualquer e comi queijos. Não é atoa que domingo é o dia que Deus quis para si. Amanhã despeço-me desta terra para ir para outra, onde os domingos cheiram a resto de álcool e os sinos ressoam. 



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