quarta-feira, 18 de julho de 2012

O bicho criança.



Ao nascer atravessa-se um período de não entendimento. Entretanto no momento posterior, dos dois aos cinco anos de idade em média, a criança atinge seu momento de maior intelecto e capacidade mental. Os sentidos estão intactos, vibrantes e genialmente curiosos, numa ânsia de aprendizado e conhecimento sincero, sem serem predestinados a objetivos e metas além do próprio saber. Desta forma, ambos se fazem muito mais interessantes e proveitosos. Os olhos arregalam-se por tudo, como instrumentos a criança usa “O que é isso?” “Por quê?”, e também as próprias mãos para observar e testar tudo. É sensível para detectar a pequenez importante e seus sentimentos são simples e claros, encontrando sempre as soluções acertadas: comida, abraços, banheiro, desenho, a mãe. Não foi ainda corrompida pela as nossas más criações, não conhece a mentira. A sinceridade se transborda nas palavras, nos gestos, nos sentimentos. Diz o que pensa e pronto, não conhece a ética, a nossa necessidade de falsidade. Consegue encontrar a felicidade verdadeira justamente pela sensibilidade para encontra-la nas coisas reais e pequenas. 

Dos cinco aos doze anos, a busca pelo conhecimento das coisas vai progressivamente perdendo lugar para a busca das distrações: depois de aprender o “básico”, de entender as coisas “necessárias”, quer desfrutar das mesmas para sua diversão. De forma progressiva perde a curiosidade pelo importante. Aos poucos, sua felicidade se torna mais complexa. Se aos seis distraía-se com uma bolinha de plástico, aos sete quer uma de futebol. Vai começando a desejar carrinhos, arminhas, bonecas melhores... Aos oito, a menina sabe diferenciar uma Barbie falsificada de uma verdadeira, e quer a verdadeira porque a amiguinha a tem. Cansa-se da mesma aos nove, querendo agora além da Polly, seu parque, suas roupas, seus acessórios. Começa a perder a sabedoria a partir do momento que, mesmo ainda em sua forma mais simplória, começa a conhecer e utilizar nossas mazelas: mentiras, ambições, ofensas, egoísmo. Ainda sim, se divertir faz-se objetivo maior. 

O bicho criança atravessa sua fase mais birrenta dos doze aos dezoito: quer, e quer, e quer. Sem saber ao certo o quê e porquê, afinal aquela perda progressiva da clareza e da profundidade continua a mil. Nesta época a superficialidade das coisas atinge o grau máximo na vida deste animal, devido aos sentimentos confusos que nunca definem o que estão pedindo: viram roupas, sapatos, relacionamentos desesperados, necessidade de atenção excessiva. Aqui, tanto fêmeas quanto machos, não sabem o que fazem e não costumam pensar sobre isso. Só fazem. Só querem, só exigem, só precisam. A sua rebeldia desgovernada se transmite em comportamento, conversas, relacionamentos. Tudo para mostrar que é dono de si, para se auto afirmar. Por não saber o que fazer, age por instinto, já atiçado pelas mudanças hormonais e físicas enfrentadas na fase. Não há felicidade, sim alegria eufórica em ápices. 

Dos dezoito aos vinte e cinco em média (todos as faixas etárias são estimativas, essa porém é a que apresenta maior variação, alguns costumam ficar mais tempo na fase birrenta.), a criança toma maior conhecimento do sistema, engole todo o trambolho imposto, e entende que há um modo de se comportar,  algo a se fazer para ser feliz. Define então seu objetivo de vida: estudar para ser alguém, ter casa, carro, viagem. Escolhe uma faculdade, de preferência uma que renderá melhores salários no futuro, e às vezes, algo que tenha afinidade. Aprende a quando rir, quando mentir, a roupa adequada a cada ambiente. Começa a trabalhar e entrar nos eixos. A necessidade de alguém agora já não é mais tanto a vontade de ser orbitado e carência, e sim, ter a companhia de alguém para não estar só, pois a solidão é um dos maiores medos do bicho criança. É a fase na qual o bicho aprende a se domar e comportar, apesar da necessidade de fugir para a loucura nos fins de semana: farras da adolescência persistem, mas agora a criança está a construir o seu futuro. Aprendendo a andar na linha, equilibra diversão com responsabilidades. Nesta fase, muitos idealismos são perdidos para aderir-se ao idealismo comum ao entendê-lo por felicidade. 

Dos vinte e cinco aos trinta e cinco em média, a criança vai obedecendo, calando-se para chefes, aprendendo que algumas coisas precisam ser realmente engolidas. Mesmo amargando a alma, continua a lutar com compostura. Mesmo sem entender direito seus sentimentos e os dos outros, formula as concepções de certo e errado, e aprende a se defender das maldades do mundo e das pessoas. Se necessário gritará, brigará, esquecerá. Vai saber vingar-se, afinal, não é mais boba. É esperta. Fará tudo para ganhar. Ganhar seus objetivos, suas lutas, seu amor, seus sonhos (mesmo que vagos, distorcidos ou manipulados). Agora a criança se comporta de forma mais completa, mas luta para alcançar uma felicidade que mais parece um borrão, do que algum desenho nítido no fim do túnel. Carrega em si a ilusão triunfante de finalmente ter amadurecido.

Dos trinta e cinco aos sessenta, mais uma vez progressivamente, ela vai se consolando. Tentando; uma vitória aqui e uma perda ali, uma vontade que passa por parecer inviável demais. Trabalha, descansa, se diverte. Às vezes se desentende com os outros, enfrenta alguns sustos. Vai tirando de tudo lições. Os anseios, a sede pela luta, vai se tornando indiferente, inexistente. A criança fica entediada, com a sensação de já ter visto tudo e de que não irá conseguir mais nada, que a vida era aquilo mesmo. As mesmas sensações de alegria e tristeza constantes, algumas insatisfações nunca mutáveis. Costuma buscar alguns momentos bons que não vem com a mesma intensidade de antes para distrair a mente de todo tédio e apatia. 

Dos sessenta ao fim da vida, nota-se a tendência rabugenta da criança que agora é amargurada por não ver mais nada de novo, por nada ter para fazer ou se distrair. Reclama da coluna (o corpo aos poucos se degrada), da dor nas pernas, da comida, da visão ruim. Valoriza todas as fases anteriores de forma sofrida, ansiando novamente suas maravilhas. Apesar de estar a sofrer, teme a morte, pois representa o desconhecido. O tédio somado a falta do que fazer devido ao corpo inválido torna-se finalmente, uma nostalgia ruim. Agarra-se a coisas tolas, picuinhas bestiais. Contrária à primeira fase, valoriza as coisas pequenas inúteis e sem valor. 



P.S: Todo ser humano é um dia criança, mas nem todo permanece nesta fase o resto da vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário