quinta-feira, 12 de julho de 2012

Viver leve, lento e bom.

Quero moça de quermesse que quer missa pra casar.

Sou uma pessoa que gosta de ruas estreitas. De vizinhos nas esquinas, senhoras em lãs, meias e chinelos, cabelos presos por grampos. Falando sobre a Luisa que vai ter neném, comentando sobre o tempo, lembrando-se de “causos” antigos. Barulho de crianças brincando na rua, a mãe chamando para dentro, já que é dia de semana e é necessário fazer a lição de casa. A menininha se senta no passeio e brinca com o cachorro da vizinha, enquanto a mãe conversa com seus vizinhos. “Levanta, Laura, cê já tá gripada, ainda senta nesse chão gelado?” 

Gosto das casas pequenas e coloridas, coladas umas nas outras, com entradinhas estreitas e muitos vasinhos de plantas, algumas flores. A portinha baixa, grades de liberdade. O vô na cadeira de balanço entre as plantas, só observando. Esperando alguém disposto a um bom papo. A vó faz tricô, escuta o padre no rádio e cuida do netinho pequeno, dá os doces da lata que a mãe não deixa dar antes das refeições. 

Cumprindo profecias adeliasísticas, o povo chupa laranja nas portas aos domingos de sol, no paraíso da sombra de uma árvore enquanto o rapaz anda de bicicleta. A missa a noite é de lei, tempo de Quermesse é festa, mexida, trabalho, alegria. 

Moça grávida aos quinze é escândalo, dias e mais dias de assuntos para o pessoal que nas portas conversam a noite, acompanhantes espantados e assíduos do caso. Não é engolido com aquele conformismo irônico do que já se tornou comum nesse nosso mundo. É escândalo, é raridade. “Bem que desde sempre a Clarinha do Manuel, já era a mais espevitada mesmo, muito pá frente. Falava com a Lúcia: num deixa Tereza andar muito com essa menina não”, o Juca comenta de braços cruzados. O rapazinho treme de medo, arrependido. Trabalha e vai ver a moça todos os dias. Estão arrumando o casório que talvez nem fosse para ser, mas que agora precisava. 

É o namoro de sofá, alegria juvenil é cinema com a mocinha. Conversas nas festas de igreja, eventos da escola. Sorriso, braços e mãos, satisfazem. Um pouco de distância, porém satisfatória. Não existe nossa atual ânsia, que nunca é satisfatória. Sem gritos, choros, alardes, grandes decepções. É coração disparado, pernas tremendo e alegria quando pai diz que aprova. E tudo vira sonho. 

Bom demais, frio sob cobertas em feriado. Parente pouco visto visita, e tem café, bolo, broa, biscoito e bolacha, tudo da melhor qualidade. A família junta dinheiro o ano inteiro, e no final vai para praia. Traz foto e lembrancinha, e um tanto de caso para ser contado na esquina. Alegria maior para ser contada, é só filha entrando em faculdade na cidade grande para ter emprego bom, filho casando com moça que é boa pessoa. 

E assim, sem fogos, tecnologia de ponta, insônia de preocupação, religião só por desespero, e sim desejo e necessidade sincera. Sem veneno escorrendo mortalmente das línguas, ambições delirantes. Sem ciclos viciosos, pressa de viver, comer, chegar, alcançar. Sem tudo isso, a vida vai. Mais bonita na hora que o céu é multicor ao pôr-do-sol. 

Eu gosto, podem me acreditar doida, mas eu gosto. Porque gotas de felicidade vêm com emoção muito maior que enxurradas da mesma. 

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